É sempre lua cheia na cidade: A Influência da Lua na Nossa Vida
- Lisiê Silva

- 26 de fev.
- 5 min de leitura
Atualizado: 12 de mar.

A Luz da Lua cheia e Seus Efeitos
Depois de 35 anos vivendo na cidade, fui morar onde não tinha postes de luz pela rua, e pela primeira vez pude constatar a influência da luz da lua sobre a noite. Na lua nova, tudo fica escuro, e o céu parece repleto de novas constelações. Com o crescer da lua, a rua vai ficando mais nítida. E na lua cheia tudo fica claro como o dia, seria possível caminhar na rua sem lanterna. O comportamento dos animais e insetos muda nessa lua, os sons que emitem os sapos, grilos, cigarras... Na cidade, jamais perceberia isso: lá é sempre lua cheia. Como nos esquecemos do porquê desse ritmo? E como isso influencia nossa vida, sono, humor e saúde?
O Ritmo da Natureza
Tudo na natureza é ritmo. As estações, o dia e a noite, os ciclos lunares, a atividade e o repouso, a respiração, a circulação sanguínea, e os picos de liberação de hormônios, como cortisol e melatonina. Dr. Fritjof Capra, físico, em seu livro "O ponto de Mutação", diz:
"O papel crucial do ritmo não está limitado à auto-organização e à auto-expressão, mas estende-se à percepção sensorial e à comunicação. Quando enxergamos, nosso cérebro transforma as vibrações da luz em pulsações ritmicas dos seus neurônios. Transformações semelhantes de modelos rítmicos ocorrem no processo auditivo e até a percepção do odor parece estar baseada em "frequências ósmicas". E acrescenta, "a realidade à nossa volta é uma contínua dança rítmica".
Ailton Krenak, indígena, também aborda essa questão em seu livro "A vida não é útil":
"A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária."
O ritmo desempenha papel crucial no organismo humano, animal, na natureza - estes interagem e se comunicam entre si. Nessa interação, podemos nos sintonizar. O sol, por exemplo, exerce papel fundamental na produção de melatonina, hormônio indutor do sono. Essa sincronia não é por acaso. Há relatos de mulheres que percebem seus ciclos se sincronizarem quando convivem por longos períodos, ou quando duas pessoas passam por uma experiência juntos e plenamente satisfatória, neste entrelaçamento de ritmos, como uma dança bonita, feliz, gostosa de viver. Nestes raros momentos da vida, nos sentimos sintonizados com algo maior, algo que transcende nosso entendimento, tudo flui, tudo conspira ao favor, nos sentimos fortes, saudáveis, confiantes das nossas escolhas.
O desafio da vida na cidade
Mas como vamos sentir isso na cidade onde é sempre lua cheia?
Na cidade, a noite nunca é noite. É postes acesos, farol alto, tela brilhando no rosto. Esse excesso de estímulos, barulho e luz, faz com que nosso organismo se confunda. E não é só melatonina e cortisol que ficam bagunçados, esse pensamento de base bioquímica explica muito pouco toda repercussão para o ser humano, que não apenas no sono, no estresse psíquico, nas perturbações de toda ordem na vida. Tudo fica estranho. As relações saem do ritmo, tudo não parece fazer mais sentido. E não fazem mesmo. Pra um organismo que só existe por causa do sol, do dia e da noite, da lua, é difícil entender que agora é sempre lua cheia, lua da mente ativa, de sair a noite, de vigiar, dos festejos. Por sua luminosidade e força simbólica, a lua cheia sempre ocupou um lugar especial em muitas culturas. Ela orientava deslocamentos, regulava rituais e organizava a vida coletiva para colheita de folhas para banhos e chás medicinais, a caça e observação do comportamento dos animais.
É confuso demais ser sempre lua cheia, os corpos ficam exaustos. Mesmo porquê existe uma pausa de em média 29 dias entre as luas cheias, para o corpo entrar num ritmo de descanso.
A Lua e o Ciclo Menstrual
Com pessoas que menstruam, gosto de falar sobre a influência da lua no humor durante o período menstrual. É comum que apareçam sintomas como insônia, dor de cabeça, inchaços e irritação durante a lua cheia. Para quem deseja se aprofundar, recomendo ler sobre "Plantar a Lua" e temas relacionados ao "sagrado feminino".
Talvez a questão seja como reaprender a anoitecer por dentro, mesmo vivendo sob a luz e o ritmo da cidade.
Reconhecendo Nossas Vivências
Existem muitos caminhos para isso, mas antes é preciso reconhecer o que estamos vivendo. No consultório, recebemos frequentemente pessoas com queixas semelhantes: dificuldade para iniciar o sono, despertares no meio da madrugada, ou um cansaço ao acordar, como se a noite não tivesse restaurado nada. O corpo pesa, o mau humor, e quando a noite chega novamente, a mente não desacelera. Os pensamentos giram em ciclos repetitivos de revisão, preocupação e angústia. A cabeça não desliga. O sono não vem.
Dentro de uma formação ocidental em saúde, aprendemos a explicar esse quadro por vias conhecidas: desregulação de neurotransmissores, alterações bioquímicas de cortisol e melatonina, hiperatividade do sistema nervoso. E, de fato, existem medicamentos hipnóticos e indutores do sono que podem interromper esse ciclo - ao menos temporariamente. Falo como farmacêutica, mas também como alguém que já atravessou períodos de insônia. Em momentos de cansaço e desconexão, recorri a medicamentos. Era o recurso disponível, o que parecia possível naquele momento. Mas, para mim, não foi solução. O sintoma silenciava por algumas horas, e depois retornava mais intenso. Não fazia sentido viver assim.
Hoje, constatamos que o problema não é exatamente químico, mas rítmico. O primeiro sintoma é a perda de um ritmo fundamental do ser humano: o sono. Mas podemos entrar no ritmo de diversas maneiras. Vou pontuar algumas que geralmente discutimos com os pacientes. Claro que cada pessoa adapta dentro de sua possibilidade e realidade:
Acompanhe o ciclo lunar. Sua avó sabia em qual lua estava sem olhar para o céu. Acompanhar o ritmo lunar nos reconecta com algo sagrado e ancestral. O objetivo é sentir o ritmo da vida. Olhe para o céu todos os dias. Leia sobre a influência da lua sobre seu humor e dê vazão às emoções.
Deixe o sol entrar. Banhe-se de sol. Há estudos (clique aqui para ler) sobre a importância do sol para a produção de melatonina e como indutor do sono. Não precisamos de comprovações científicas para saber que o sol é fundamental para a vida no planeta e para a nossa vida, não apenas para o sono.
Faça um escurinho em casa. Troque as luzes da casa por lâmpadas de temperatura amarela, como as de 3.000K. Elas imitam o entardecer e ajudam a induzir o sono. Diferente das luzes brancas (6.500K), que mantêm um estado de vigília. Luzes fortes já foram usadas como método de tortura para impedir o sono restaurador.
Crie um ritmo próprio. Seu ritual noturno é fundamental para o seu sono. Seja uma música, um chá, uma leitura, uma conversa, observar as estrelas e a lua, ou escutar os sons da natureza. Hoje, muitos se conectam com o brilho das telas e o excesso de informações, o que contribui para a ansiedade e insônia. Fique atenta a isso!
Sinta as estações. Esse é um ritmo esquecido e fundamental. Algumas pessoas não sentem mais as estações. O calor no verão, por exemplo, é ignorado. Na acupuntura, o calor aquece o coração, que, por sua vez, aquece todos os outros órgãos. Essa energia é necessária para manter a circulação. Uma energia que não circula estagna, bloqueia e gera dores crônicas.
Plante e cuide. Acompanhe uma plantinha nascendo. Cuide e reconecte-se com o enigma da vida escondido em uma pequena semente.
Pés no chão, acenda uma fogueira e dance, cante! Como já citei, "A vida é uma dança cósmica!"
Conclusão: Encontre Seu Ritmo
Caberia descrever muitos outros ritmos, ciclos, conexões astrais, ventos cósmicos, espiritualidade, nascer, morrer, viver! Cada um encontra o seu, dentro de sua realidade, possibilidade e caminhada. Dentro de você existe um ser sábio e ancestral que vai te guiar nessa jornada. Precisamos estar mais atentos para conectar-nos a essa sabedoria natural. E mesmo que a lua continue sempre cheia na cidade, que sejamos capazes de enxergar além dela.
Lisiê Silva




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