A travessia de nascer de novo na própria vida
- Manacá Medicinal

- 14 de mar.
- 4 min de leitura

Quando nos deparamos com uma situação que nos fragiliza, emocionalmente ou fisicamente, seja uma decisão difícil, uma doença ou situações que não temos controle e não podemos mudar, há uma sensação estranha, difícil de nomear, como se estivéssemos caminhando no fio de uma navalha, e que vou chamar aqui de travessia. E junto dela vem um desejo quase que inconsciente, como um sonho, de querer sair do próprio corpo e de estar em outra vida, fora de si mesmo, de nascer de novo.
Este nascer de novo não é apenas possível como necessário e esperado. "A própria natureza exige morte e renascimento, em todos os processos naturais da vida, e essas transformações acontecem quer queiramos ou não, saibamos ou não." Este trecho li em um livro de Carl Gustav Jung, médico psiquiatra que desenvolveu um extenso estudo e trabalho no campo do inconsciente.
A travessia do nascer de novo na própria vida: o renascimento em outro ser segundo Jung
Jung fala também que o processo natural de transformação é um processo interno demorado do renascimento em outro ser:
"Este 'outro ser' é o outro em nós, a personalidade futura mais ampla, com a qual já travamos conhecimento como um amigo interno na alma. Por isso é algo reconfortante para nós ao encontrarmos esse amigo e companheiro reproduzido num ritual sagrado [...] no qual a própria natureza gostaria de nos transmutar: naquele outro, que também somos, e que nunca chegamos a alcançar plenamente."
Compreender os processos naturais da vida é essencial no cuidado em saúde. Nem sempre estamos diante de uma doença. Aquilo que chamamos de ansiedade, depressão ou outro diagnóstico pode ser este momento de profunda transformação interna, de travessia. Para isto é necessário amparar estes momentos, criar meios para que ele aconteça de forma natural e não medicalizante ou patologizante (temos um texto sobre estes termos aqui).
E como acontece essa travessia? Este nascer de novo na própria vida.
Como todo nascimento, é intenso, profundo, dolorido, e se isso acontece sozinhos dá ainda mais medo, vontade de desistir de tudo, se prostrar, parece o fundo do poço, não sabemos mais quem somos, o que queremos, tateamos numa caverna sem luz, sem orientação. Para este momento, gosto sempre de dizer a seguinte frase "o fundo do poço ensina o que o alto da montanha não ensina." Quem já passou por estes momentos sabe o que é, e o respiro de sair daquele lugar é como se estivesse respirando a primeira vez neste mundo, de ter vencido a si mesmo. É a travessia. Não seremos mais os mesmos, e é fundamental que isto aconteça.
Os momentos da vida em que somos chamados a renascer
A experiência da transcendência da vida, desta travessia, estão presentes nos diversos momentos da vida:
na passagem da infância para adolescência;
nas mudanças dos ciclos hormonais onde há transformações não apenas no corpo como na mente, como no início da puberdade, na gestação, puerpério, climatério e menopausa / andropausa;
no início de uniões e dissoluções conjugais;
rupturas, morte e luto;
em acidentes que mudam completamente a vida e rotina;
nas mudanças de trabalho, de cidade ou país;
nas doenças;
Os rituais de travessia nas tradições humanas
Quando esta travessia acontece de forma solitária ela é possível, a transformação natural ocorre mesmo assim, mas Jung nos traz também a perspectiva dos rituais de transformação, os rituais sagrados de travessia que acompanham a humanidade desde os tempos mais antigos.
Em diferentes culturas, sempre existiram formas de marcar as grandes passagens da vida. Rituais que reconhecem que algo terminou e que algo novo começa. Eles não servem apenas para celebrar, mas para amparar a transformação.
Nas tradições religiosas isso aparece de muitas formas: no batismo, que simboliza o nascimento para uma nova vida; nos ritos de iniciação; nos casamentos; nos velórios. Cada rito reconhece que o ser humano atravessa momentos em que deixa de ser quem era para tornar-se outro.
Em muitas tradições indígenas, africanas e orientais também encontramos ritos semelhantes: períodos de recolhimento, rezas, banhos, cânticos, peregrinações, cerimônias conduzidas por anciãos ou guias. Esses rituais criam um espaço protegido onde a transformação pode acontecer.
O cuidado em saúde como ritual de passagem: Nascer de novo na própria vida
Talvez o cuidado em saúde também possa ser compreendido dessa forma, não apenas como um conjunto de técnicas ou intervenções, mas como um acompanhamento atento da travessia humana. Um espaço onde alguém possa ser escutado, compreendido enquanto algo dentro de si se reorganiza.
Quando o cuidado acontece assim, ele se aproxima de um ritual de passagem.
O consultório torna-se um lugar de colocar em palavras aquilo que ainda não tem nome, reconhecer o momento que se vive e fortalecer o corpo e a mente para continuar atravessando e cuidar para que ele aconteça de forma mais consciente e amparada.
Nascer de novo na própria vida quase nunca é simples, mas ela pode se tornar menos solitária. E aquilo que parecia apenas um fim revela também o começo de outra forma de viver.
— Manacá Medicinal
Lisiê Silva e Deise Klauck




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