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Quem cuidou de você?

  • Foto do escritor: Lisiê Silva
    Lisiê Silva
  • 14 de fev.
  • 4 min de leitura
janela com espada de são jorge

A primeira lembrança que tenho de relatos da minha infância é da minha avó materna dizendo que olhava pra mim e pensava "ela é muito pequena, acho que não vai se criar" - eu me imaginava muito fraca e doente a ponto de minha avó pensar que eu morreria. Então minha avó disse que após o pediatra prescrever um medicamento que não funcionava - eu continuava chorando muito, não querendo mamar e com lesões na pele, que deixavam tudo em carne viva - ela resolveu me levar na benzedeira, a dona Carolina do Ribeirão da Ilha em Floripa. Foram várias idas nela, mas segundo a minha avó, já no primeiro banho de erva que ela entregou, as lesões se acalmaram e eu também parei de chorar. Essas ervas eram aquecidas com água solarizada, e então tomava o banho com essa água. E toda semana ela me levava lá para benzer, e assim foi até que sarou.


Você pode imaginar quanta magia existe nessa história que mistura sabedoria da avó, da benzedeira, das ervas e da água solarizada, e tem mesmo, mas para mim recém nascida a maior magia foi a do cuidado da minha avó, da preocupação e o tempo que se dedicou para que eu melhorasse, pois sentia que se nada fosse feito eu morreria. E assim foi, durante toda minha infância e adolescência cresci sob o olhar amoroso dela.


Minha avó não era delicada, nem muito sensível, não teve oportunidade de se alfabetizar, uma vida de muita roça, trabalho, de lavar a roupa na cachoeira, mas se especializou nessa arte de olhar e perceber. Reagia a tudo que via. Nada passava sem sua opinião.


Esses dias durante um atendimento de acupuntura lembrei dela, e como ela mesma falava muito bem do efeito das agulhas pras dores dela, das plantas medicinais, e me dei conta de que me tornei o que ela amava. E eu me emociono em perceber isso. Mas a partir daqui, eu sei que é eu comigo mesma, não conto mais com a presença física dela.


Por muito tempo após o desencarne da minha avó eu chorava, de saudade e por me sentir desamparada, sozinha, sem ajuda, revoltada por não contar mais com a presença dela, chorava igual criança, até que sonhei com ela. No sonho eu ia numa condução com outras pessoas da minha família até o local onde iríamos revê-la, chegamos numa casa simples, com estrada de chão. Quando cheguei sentei numa cadeira próximo a janela e vi que era rodeada de outras casas, parecia uma vila. Nessa hora eu sabia que eu iria rever a minha avó, tinha consciência que ela estava desencarnada e que estava ali num desdobramento espiritual. Sentei no sofá e me falaram que ela estava vindo. Eu aguardava como uma criança, ansiosa por um abraço de saudade. Mas para a minha surpresa, a minha avó só me deu uma lição - ela me olhou, deu um abraço rápido como quem tem pressa e disse: "-filha, você precisa continuar sem mim, eu já completei a minha missão e agora estou estudando, não há tempo a perder com lamentações de saudade infantil, você precisa agora trilhar o próprio caminho". Se despediu e saiu andando rápido, com os pés descalço no chão. Quando acordei, um misto de sentimentos, espanto, ressentimento, mas um sensação de enraizamento, de cair na real, de sobriedade. Minha avó não era mais aquele ser mágico que cuidava de uma criança frágil, ela me mandou caminhar com as próprias pernas.


Foi a partir desse sonho que compreendi algo que hoje também abordamos nos atendimento, temos um texto no blog sobre este assunto: "Por que não sonhar é tão ruim quanto não dormir?" a importância do sonho para saúde da mente, a restauração do inconsciente e conexão com esse mundo misterioso e espiritual.


Mas o que queria trazer sobre a reflexão deste sonho que tive e o tema deste texto "Quem cuidou de você?" e fazer uma referência sobre como construímos nossa vida sob a perspectiva de quem nos cuidou. A saber da nossa vida infantil, podemos ter pistas de toda decisão que tomamos ao longo da vida, e como nos construímos em cima disto. Se não nos damos conta, podemos estar cumprindo apenas com expectativas e não com os próprios sonhos. E um passo precisa ser dado quando revelamos isto para nós mesmos.


Recentemente li um livro da psicóloga Laura Gutman que se chama "O Poder do Discurso Materno - ", onde ela redesenha toda biografia humana com base no discurso de quem nos cuidou e a partir daí há a verdadeira busca de si mesmo, e do eu verdadeiro, e não o personagem do eu iludido que nasce do discurso do outro. Ela mede o sofrimento infantil com base no tamanho do abandono afetivo vivido, a criança necessita de cuidado, amparo, olhar, nomear os sentimentos - e se cresce num deserto emocional, sozinha, possivelmente irá construir muitas camadas de proteção sobre si mesma. Essas camadas irão permanecer durante toda a vida se não forem retiradas uma a uma.


Perguntas que pode nos fazer refletir por muito tempo:


  • Quem cuidou de você e como cuidou?

  • Quem te ajudava quando você sofria emocionalmente?

  • Quem te levava à escola?

  • Quem te ajudava nos deveres escolares?

  • Quem estava presente nos momentos felizes?

  • Quais lembranças tem da infância em relação a este ou estes cuidadores?


Responder estas perguntas já nos dá uma perspectiva do cuidado ou do abandono sofrido. E não nos surpreendamos com a quantidade de solidão que diversas gerações sofreram no abandono emocional e afetivo. O problema de continuar nesse estado de escuridão é não saber como ajudar a si próprio quando somatiza no corpo as marcas do trauma e do abandono da infância. Muitas pessoas continuam andando tateando devagar para encontrar alguma ajuda ou resposta. E as soluções mágicas brotam, em cada esquina uma farmácia, para cada sintoma um medicamento, um profissional que acolhe com cuidado materno para sua criança fragilizada. Só quando nos apropriamos da nossa vida, da nossa saúde, de forma ativa e responsável, é que o organismo encontra meios saudáveis de recuperação.


Todos nós temos uma história que nos trouxe até aqui. A partir dela nos construímos - mas podemos escolher, a partir de agora, sermos autores da própria vida.


Lisiê Silva



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