Desprescrição: por que nem todo remédio deve ser contínuo
- Manacá Medicinal

- 14 de abr.
- 2 min de leitura

No período em que trabalhei na farmácia, escutei diversas vezes a seguinte frase:
“Com essa sacola de remédio eu nem preciso comer.” E sempre fiquei pensando sobre isso...
Para muitas pessoas, o dia começa com um comprimido de levotiroxina, trinta minutos antes do café da manhã, necessário já que a tireoide não produz um hormônio fundamental para o metabolismo celular, a tiroxina.
Outras iniciam o dia com omeprazol, um medicamento que reduz a produção de ácido no estômago, muitas vezes para suportar os remédios que virão depois. E assim o dia começa.
Aos poucos, chegam os medicamentos para pressão alta, diabetes, arritmia, colesterol, circulação, dor, depressão… No fim do dia, o remédio para dormir.
Enquanto isso, fígado e rins trabalham para metabolizar e eliminar tudo isso.
E, na manhã seguinte, o ciclo recomeça.
E então vem a pergunta:
até quando vou precisar tomar tudo isso?
Quando a prescrição é necessária e quando a desprescrição é fundamental?
A desprescrição é um processo clínico de revisão, redução ou suspensão de medicamentos, indicado quando já não há benefício claro, ou quando começam a surgir efeitos adversos, interações medicamentosas ou prejuízos ao estado geral.
Não é simplesmente parar de tomar. É uma decisão baseada na história da pessoa, nos riscos, nos exames e no momento de vida. É uma reavaliação da prescrição, que pode ter sido necessária, mas pode já ter concluído o seu papel.
Esta avaliação é individualizada: do risco cardiovascular, metabólico e estado geral, além da análise do contexto clínico, histórico de uso, carga medicamentosa (polifarmácia) e objetivos de cuidado.
Seu objetivo é reduzir desfechos negativos associados ao uso crônico de medicamentos - como reações adversas, interações, quedas e declínio funcional - e otimizar a terapêutica, priorizando intervenções com maior impacto na qualidade de vida e nos desfechos em saúde.
Um dos grupos de medicamentos que mais nos chama atenção na prática são as estatinas (como sinvastatina e rosuvastatina), principalmente em pessoas com baixo risco cardiovascular, sem histórico de colesterol familiar elevado, e que começaram a sentir dores musculares, cansaço constante e queda no rendimento físico. Muitas vezes, esses sintomas podem estar relacionados ao uso contínuo desses medicamentos.
A desprescrição pode ser uma possibilidade, sempre com acompanhamento, junto com o reforço da atividade física e alimentação, também utilizamos fitoterápicos como apoio durante esse processo de retirada, acompanhando e reavaliando com exames ao longo do caminho.
Outros medicamentos que costumamos avaliar de perto são: inibidores de bomba de próton (como omeprazol e pantoprazol), suplementação de cálcio, anti-hipertensivos, corticoides, anti-inflamatórios e medicamentos para dormir.
E para a pergunta: Até quando vou precisar tomar tudo isso? Respondemos que nem todo tratamento precisa ser mantido para sempre.
Revisar, reduzir e, quando possível, retirar, também faz parte do cuidado.
Reduzir medicamentos pode permitir a recuperação da resposta fisiológica do organismo.
Lisiê Silva, farmacêutica e bioquímica CRF/SC 12335
Dra. Deise Klauck, Médica
Lisiê Silva, Farmacêutica clínica




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