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Plantas medicinais: o que quase ninguém explica quando começamos a usar

  • Foto do escritor: Lisiê Silva
    Lisiê Silva
  • 10 de mar.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 14 de mar.

plantas medicinais folhas e flores


Há algo de bonito quando alguém decide se aproximar das plantas. Quase sempre esse movimento nasce de um desejo sincero: cuidar melhor de si, encontrar caminhos mais naturais, escutar-se com mais carinho e atenção.


Mas nesse início, existe um erro muito comum - e ele não está nas plantas.

Ele está na forma como aprendemos a pensar a saúde.


Muitas dúvidas surgem quando começamos esse caminho. As plantas medicinais não atuam apenas sobre sintomas isolados, mas sobre o equilíbrio do organismo como um todo. Neste texto, você vai entender por que a mesma planta pode ter efeitos diferentes em cada pessoa e como o olhar tradicional das plantas medicinais considera o corpo, os hábitos e a história de vida.


O erro mais comum é escolher plantas medicinais para tratar apenas UM sintoma.


Muitas pessoas começam a usar plantas medicinais tentando encontrar o equivalente natural de um remédio industrial. Por exemplo, o sintoma é edema, e a pessoa toma um medicamento sintético diurético, como espironolactona, então deseja um substituto natural, como Cavalinha ou Dente-de-leão. Até que é possível ter vários benefício nesta substituição, afinal estamos substituindo um medicamento sintético que tem diversos efeitos adversos, por uma opção natural - mas provavelmente teremos que aplicar a mesma lógica do medicamento, capsulas do extrato da planta com uma posologia indicada (tomar x capsulas x vezes ao dia por x dias).


Porém o uso com plantas medicinais não segue a lógica dos medicamentos e não funcionam exatamente assim.


A planta não trata só o sintoma. Trata a pessoa em sua totalidade.


É compreensível. Fomos educados dentro de uma lógica onde cada sintoma pede um remédio específico. Mas, logo perceberemos que sem as capsulas, mesmo que naturais, o edema pode voltar. Temos então que pensar na origem do problema, o porquê do acúmulo de edema. Na acupuntura, por exemplo, chamamos o edema de fleuma.


Nessa outra perspectiva, pensamos numa planta, ou numa associação de plantas, que não apenas seja diurética como também possa dar força para os órgãos responsáveis por depurar a fleuma , precisamos então avaliar a condição do estômago, do baço-pâncreas por exemplo, e assim escolher chás que auxiliam todos estes órgãos.


Na medicina das plantas, o olhar é mais amplo. Elas não atuam apenas sobre o sintoma - atuam sobre o terreno da pessoa. Já ouviu falar que cada pessoa é um território?


Existe um ensinamento antigo que diz: quando a pessoa precisa, a planta aparece.

Em um curso de Medicina da Floresta que fiz, uma cacique Guarani compartilhou algo que ilustra bem essa sabedoria. Ela contou que, muitas vezes, uma determinada planta chamava sua atenção no caminho, no quintal ou na mata. Pouco tempo depois, alguém da comunidade vinha procurá-la em busca de ajuda - e, não raro, era justamente aquela planta que se mostrava necessária para o cuidado daquela pessoa.


Para ela, isso não era coincidência. Era parte da relação viva entre as pessoas, as plantas e o território.


Aproximar-se das plantas é também mudar a forma de olhar a saúde.


Por isso, a mesma planta pode ajudar uma pessoa e não fazer tanto sentido para outra.

E não há erro nisso. Há individualidade.


Quando alguém chega buscando uma planta para dormir, por exemplo, existem muitas perguntas possíveis:


O corpo está cansado ou acelerado?

A mente está cheia de pensamentos?

Existe tristeza?

Existe tensão acumulada?


Para algumas pessoas, o caminho pode ser uma planta que acalme. Para outras, uma que regule o sistema digestivo. Para outras ainda, uma que fortaleça o corpo durante o dia.

A planta entra como parte de um processo de reorganização do organismo.

Não apenas como um “apagador de sintomas”. Mas se já há o uso de medicamentos sintéticos, a substituição por planta é possível, mas precisa seguir também uma posologia, até que o organismo se reequilibre.


A medicina das plantas começa pela escuta


Na tradição das medicinas naturais, sempre existiu algo que precede a escolha da planta: a escuta da história da pessoa.


Como ela vive. Como se alimenta. Como dorme. Como atravessa suas emoções.

Porque muitas vezes o sintoma é apenas a ponta visível de algo maior.

E quando olhamos apenas para a ponta, corremos o risco de perder o sentido do todo.


Plantas medicinais não são apenas substâncias terapêuticas com compostos bioativos.

Elas carregam uma outra lógica de cuidado — uma lógica que nos convida a se conectar com o todo, com a natureza e a vida.


Nesse caminho, o objetivo não é apenas eliminar sintomas.

É construir uma relação mais consciente com a saúde.

E talvez seja por isso que, quando usadas com atenção e respeito, as plantas acabam ensinando algo que vai além da cura.


Elas nos lembram que cuidar da saúde é, antes de tudo, aprender a escutar a vida que existe em nós.


Lisiê Silva - farmacêutica especialista em fitoterapia clínica CRF/SC 12335


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